O dia em que te vi partir
No dia em que te vi partir, quando partiste, parte de mim foi contigo.
Eu estava no sofá, não me lembro como fui lá parar, muito menos o porquê, só me lembro de num momento estar a pensar no frio que ocupava a sala e no outro via-te diante de mim, praticamente virada de costas, de rosto voltado. Olhavas directamente na minha alma enquanto desviavas com o teu jeito particular alguns fios de cabelo que te cobriam a face. Estávamos rodeados por uma vastidão negra de nada e à tua frente, a um passo de ti, o completo esquecimento. Despedida. Era a despedida. Uma luz fraca reluzia um pouca acima da tua altura e conquistava partes do teu corpo envolto pela escuridão. Por detrás daquele jogo de sombras, luzes, tragédia, arrependimento, irrompiam os teus olhos.
Os mesmos olhos, o mesmo olhar. Dividíamos pela ultima vez a eternidade, ou o que restava dela, eternidade essa que outrora a medimos, silenciosamente, num minuto, mas Ah! Se não nos rendemos um ao outro! Se as nossas almas não compactuaram num silêncio ainda mais profundo! Se não prometemos amarmo-nos para sempre! Ah! Se não envelhecemos juntos naquela vida que vimos passar diante de nós num comboio a alta velocidade!
Lembras-te? Eu nunca esqueci. Como poderia? Se ergui muros à volta e aprisionei a outra parte de mim nessa memória. E ali estávamos nós de novo, frente a frente. Eu vi o futuro a desfazer-se na tua primeira lágrima, vi-nos a nós a extinguir nela à medida que caía, e tu sabias, tu sabias...
Os teus olhos, por fim, cederam ao destino e começavam a desprender-se dos meus, preparavam-se para encarar aquela imensidão de nada, o teu rosto se voltava lentamente para a frente, já atravessavas o esquecimento antes de o atravessares, eu chorava, gritava, mas tu não me conseguias ouvir, o teu pé rasgava lentamente o manto do tempo, tudo à volta começava a ruir como se de um terramoto se tratasse, memórias se libertavam por entre a fissura dos tijolos como almas a abandonarem corpos mortos. Mas antes que conhecesse o desfecho dos nossos destinos, tudo se desfez.
Nunca soube do momento a seguir, mas assim foi, o dia em que te vi partir.
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