À espera

Ia a caminho de um café. Entrei, esquecido de mim, como havia entrado milhares de vezes, em milhares de tantos outros cafés e fui pedir uma cerveja. Como me apetecia fumar e embora estivesse cobrido apenas por uma t-shirt e um leve casaco, decidi ir em plena noite de inverno para a esplanada. Saí e quase me sentei ao pé de um homem e uma mulher, quase porque as mesas estavam tão próximas que poderia dizer que convidei-me a sentar com duas pessoas que nunca conheci na vida. O homem era português, acompanhava o misterio do seu rosto, uma barba grande e cansada e o corpo, uma roupa banal. Falava de forma serena, como quem escreve um livro. A mulher era espanhola, falava baixinho, resguardada em si mesma, mas nao por isso menos serena, vestia um casaco grosso, grande, dando a impressao que poderia fazer dele a sua casa numa historia qualquer do livro do homem. Nisto, o homem colocou uma música, era uma musica brasileira, daquele tipo de músicas que desperta dum sono profundo qualquer alma perdida. Senti a tua falta. Mais do que sinto no dia-a-dia, esqueci-me do frio, ou o frio esqueceu-se de mim, deixei o apego a nada de lado e apenas te quis desesperadamente.
Iam falando como se o tempo não lhes pesasse sobre o corpo e as noites não lhes tirassem o sono. Respondiam na medida certa, sem promessas nas sombras das palavras, ou um romance assumido no olhar. Era uma conversa banal, como a roupa do homem, mas acolhedora, como o casaco da mulher.
Por fim, decidiram ir. O frio de janeiro voltou a invadir-me o corpo, o esquecimento preenchia-me de novo a alma e eu fiquei sentado naquela cadeira à tua espera para sempre, mesmo depois de ter ido embora...

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